Meu Passado me Condena
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Tristeza
Ressalto, de plano, que a tristeza é oceano e o homem triste está na areia da praia, impedido de ir além do horizonte e desaparecer com todas as gotinhas de água que compõem o Atlântico. Não há outra relação possível senão a da tristeza com a água, pois a tristeza é molhada, é chuva torrencial que te inunda quando volta do trabalho para casa, sem guarda-chuva nem companhia. A tristeza é como roupa molhada: tem que secar no corpo e te adoecer. Ninguém resiste à tristeza porque ela é a areia grossa da praia em dia nublado: tu sabe que o contato do seu pé com os grãos gélidos da areia arrepiarão tua alma e, ainda assim, tu vai. A tristeza é o polo catalisador da beleza. O triste empalidece, emudece e cada rara palavra que ensaia sai inundada de sentimento, de potência, de carência. O "eu não quero ir, me deixa" do triste abala qualquer passeio ao ar livre. Porque o triste fica momentâneamente cego para o mundo exterior, atentando-se somente aos fatos que possam aprofundar, ainda mais, a tristeza mesma. O triste não repara na cor azul bebê do céu, nem brinca com os formatos das nuvens. Se olha para o céu é para indagar aos deuses o motivo de tanta tristeza. O triste é o individualismo na sua face mais pura, bruta e endógena. O triste erupciona para dentro. Nem a lava do vulcão resiste a gelidez da tristeza. Quem já viu escultura de gelo sabe o que é a tristeza. É belíssima e cristalina. O triste é o escultor de si mesmo, do seu próprio corpo gelo. O triste trabalha sobre o bloco bruto da tristeza, com as ferramentas apropriadas: sempre pontiagudas ou contundentes. Com as pontas e as lâminas, o triste vai modelando a si mesmo, trincando e rachando as partes indesejadas de bloco gelo. O gelo, por sorte, não verte sangue. Porque as marteladas são destrutivas. E, assim, o triste forma o novo com a deforma do velho. A cada martelada um pedaço se vai; das sobras surgem novas formas. Na alternância entre os golpes, a tristeza vai perdendo o aspecto disforme e amalgamado e passa a dar lugar a uma vindoura escultura. De gelo, mas escultura. De tristeza em tristeza vou me apaixonando por sambas novos. Por pessoas novas. Por frases novas. Por tristezas novas. Cada geada que atinge as margaridas do meu jardim me obriga a renovar o canteiro com rosas mais belas. E na minha herança vital contabilizam-se cada vez mais esculturas de gelo-tristeza. E todas têm nome, pois todas as tristezas, pelo menos deste mundo, geralmente tem epíteto, endereço, cor e até cheiro. Sim, esculturas cheirosas de gelo. Preso, ali, cada um que me entristeceu. Dentre esses, há quem jamais escapará da condenação gelada. Outros, porém, dispostos perto da janela da minha alma, já foram agraciados com novos raios de sol e já estão derretendo, escapando do calvário gélido. Recém saídos da escultura de gelo que os prendi, com os braços abertos caminham em minha direção, ainda com o corpo frio, e pedem-me um abraço de reconciliação. Não posso negar-lhes a redenção. É como a areia grossa da praia em dia nublado: mesmo sabendo que o contato arrepiará minha alma, ainda assim, vou...
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